Aviso

Ao calor da fogueira (4 de Dezembro de 2011)

– Estou aqui num dilema, Tio Ambrósio!
– Se eu puder ajudar-te a resolvê-lo, podes contar comigo, Carlos! Os amigos são para as ocasiões!
– O meu dilema não é bem desses, Tio Ambrósio! Trata-se de uma coisa simples e que, bem vistas as coisas, tem a ver comigo e consigo…
– Mau! Não me metas nalgum assado…
– Claro que não, Tio Ambrósio!
– Então desembucha, que estás a deixar-me à nora, como se isso fosse alguma charada combinada. Afinal, qual é o teu dilema, rapaz?
– É o seguinte: por um lado, eu gostava que o Tio Ambrósio continuasse a contar-me a história das vidas dessas mulheres cristãs que, ao longo dos séculos, iluminaram, com as suas virtudes, a comunidade dos crentes. Como lhe disse já, creio eu, a minha cunhada Ermelinda até está em convidá-lo para fazer uma palestra, no nosso salão paroquial, falando precisamente sobre esse assunto. Diz ela que, até que enfim, alguém se lembra de dizer que o papel das mulheres na Igreja não foi assim tão obscuro e apagado como alguns por aí afirmam, certamente sem conhecimento de causa…
– E não foi, Carlos! A Ermelinda tem toda a razão, e pode contar com o meu apoio em tudo o que diga respeito a colocar a mulher no seu devido lugar. Olha, Carlos! E, sem querermos, já estamos a avançar por este assunto, que é apenas uma das duas partes do teu dilema…
– Pois é! Para além desse assunto, que está a interessar a tanta gente, sobretudo leitoras do "Amigo do Povo", eu não sei se vem a propósito interrompermos o relato para, pelo menos durante algumas semanas, mudarmos de tema de conversa.
– Não vejo nisso qualquer problema, Carlos! Basta que, depois, me digas quando é que pretendes retomar esta conversa sobre o importantíssimo papel das mulheres na vida da comunidade cristã. E agora vamos lá ao outro tema. Deixa-me adivinhar! Como estamos a três semanas do Natal, o Divino
Infante concedeu-te a graça de, nestas noites frias de Inverno, voltares em sonho ao Presépio e participares em alguns diálogos do Menino com figuras conhecidas da nossa vida pública, É o que se tem passado contigo em muitos anos, por esta altura das comemorações natalícias…
– O Tio Ambrósio tem um palpite mesmo certeiro! Acontece, de facto, que, uma noite destas, depois de ter estado a ler um conto de Natal ao serão, com a participação da Joana e dos pequenos, quando adormeci fui logo direitinho à gruta de Belém, vestido de pastor de gado, no meio de outros pastores que, por uma encosta acima, levavam presentes ao Menino que acabara de nascer.
– E tu eras pastor?
– Pastor de ovelhas, Tio Ambrósio! E levava, também eu, um cordeiro do meu rebanho para oferecer ao Divino Infante. Entretanto, quando chegámos (eu creio que, entre os outros pastores, também estava o Liberato, o Sanguessuga e o meu cunhado Acácio)… quando chegámos deparámo-nos com uma tranca a atravessar o caminho e um sujeito a mandar-nos parar. Eu até pensei que fosse alguém da Guarda Republicana, mas depois reparei que não tinha nenhum fardamento que o identificasse. Um dos pastores (eu creio que era o Liberato) atreveu-se a perguntar-lhe qual a razão de ser daquela tranca a barrar o nosso caminho. O fulano acabou por dizer que era de uma fiscalização qualquer e que queria que lhe apresentássemos documentos a certificar que os borregos eram nossos, que estavam em bom estado sanitário e que se destinavam a utilização sem fins lucrativos. Doutro modo, tínhamos que deixar ali os vivos, até vir um veterinário de serviço, o que iria demorar, pois como era fim-de-semana, o problema era mais difícil de resolver. E, sem o brinco na orelha do animal, dali para diante não poderíamos passar.
– Está certo! O homem não queria que vocês oferecessem ao Menino animais portadores de doenças ou de qualquer vírus que viesse a colocar em risco a saúde do Divino Infante.
– Isso pensei eu , Tio Ambrósio! Mas, depois de estarmos para ali com uma longa conversa fiada, eu atrevi-me a perguntar-lhe se não havia alguma forma de tornearmos a lei, garantindo que qualquer de nós escolhera o mais bonito cordeiro do respectivo rebanho e que nunca ninguém se queixara da qualidade dos nossos animais.
– E ele?
– Começou a trocar os pés pelas mãos e, às tantas, chamou à parte o Sanguessuga, fazendo ver que havia uma hipótese de negociação e que, como ele era, de todos nós, o mais habituado a esta coisa dos negócios, o escolhia como representante de todo o grupo dos pastores. Afastaram-se uns passos, conversaram durante largos minutos e, no fim de contas, o Sanguessuga veio-nos com a solução para o caso. O que o sujeito queria, para levantar a tranca e fechar os olhos à nossa passagem, era uma percentagem no negócio da venda dos borregos, pelo menos durante dois anos seguidos.
– Mas isso é um negócio ilícito, Carlos!
– Bem se lhe importava a ele que fosse burla, que fosse participação em actividades que levavam a enriquecimento ilícito. Ou era aquilo, ou voltávamos pelo mesmo caminho…
– E o Sanguessuga?
– O Sanguessuga, tentou descer a parada. Começou por dizer que éramos todos bastante pobres, que mal ganhávamos para nos alimentar as nós e aos nossos filhos, que bem via que íamos ali de calças rotas e de sapatos esburacados… Mas nada! Ele mandou-nos um sorriso cínico, e nem mais uma palavra nos disse. Era como ele queria, e boca calada!
– Quer dizer que, nesse primeiro sonho, nem conseguiste chegar ao Presépio?
– Não, Tio Ambrósio! E quando acordei fiquei cá a pensar se aquele sujeito do sonho não seria a personificação de muitos que todos nós conhecemos e que se abotoaram com milhões, sem terem a mínima consideração pelos mais pobres, pelos pequenos e pelos indefesos. E digo
-lhe uma coisa, Tio Ambrósio! Ainda bem que eu acordei. Porque, na verdade, eu estava já em botar o cordeiro no chão e pegar num calhau que desfizesse aquela barreira que nos impedia a passagem.
– Com violência, não, Carlos!

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