Aviso

Ao Calor da Fogueira (12 de Fevereiro de 2012)

– O Liberato anda a pressionar-me para eu ir com ele àquele congresso que vai realizar-se no dia 18, ou seja no próximo Sábado, em Coimbra, sobre a figura e os tempos de São Teotónio que, como vossemecê já aqui me explicou, foi o primeiro santo português. Vossemecê que me diz?

– Que deves aceitar o convite e até, se isso te for possível, levares contigo o teu cunhado Acácio, a Ermelinda, sua consorte, e até a tua Joana. Às vezes nós pensamos que estas coisas são só para intelectuais, e estamos muito enganados. Haverá muita coisa que se lá diga, que nós não entendemos. Mas há muitas outras coisas que estão perfeitamente ao nosso alcance e que vêm aperfeiçoar os nossos conhecimentos.
– E vossemecê não vai também?
– Eu ando aqui um bocado engripado e, por causa do frio, este danado do reumatismo não me tem largado os artelhos. Mas só não irei, se de todo não puder, isto é, se alguma gripalhada me retiver na cama a recomendação médica. De outro modo, lá estarei, na primeira ou na segunda fila, porque quem ouve mal deve chegar-se à frente, e não ficar cá para trás. Tal como na missa ao domingo. Eu não escolho o lugar da frente para mostrar que tenho a pretensão de ser dos primeiros. Isso, de resto, é contra a lógica dos Evangelhos que, nas festas e banquetes (e que banquete mais festivo há que a Eucaristia?) nos mandam que tomemos o último lugar, para que Aquele que nos convidou nos diga para nos chegarmos mais para cima, ficando assim bem vistos aos olhos de todos. Não é, pois, por isso que eu me vou sentar sempre nos primeiros lugares. É porque, na minha idade, o ouvido começa a faltar e eu, se vou, é para ouvir aquilo que se diz.
– Quer dizer que já se inscreveu?
– Sim, Senhor! Já mandei uma carta para a D. Maria do Rosário, que é a secretária do Instituto de Teologia, para contar comigo, incluindo para o almoço. Não mandei dinheiro, mas tenho a certeza que ela confia em mim e, na hora de receber a documentação para o Congresso, acertaremos contas.
– Bom! Se vossemecê me fala desse modo, eu vou mesmo responder afirmativamente ao convite do Liberato. O Sanguessuga é que não há-de querer deslocar-se, por via da data…
– A data é a mais adequada, Carlos! São Teotónio faleceu, com odor de santidade, há precisamente oitocentos e cinquenta anos, a 18 de Fevereiro de 1162. É, pois, este o dia próprio para se recordar a sua figura e a sua obra…
– Mas bate no sábado de Entrudo, Tio Ambrósio! E o Sanguessuga tem o negócio dele, que, este ano, parece já estar um pouco prejudicado com a decisão do Governo em não permitir tolerância de ponto no dia de Carnaval. Lá se vai mais um feriado!
– O Carnaval nunca foi considerado feriado, Carlos! Foi sempre um dia em que o nosso povo, sobretudo ao fim da tarde, aproveitou para se divertir um pouco, para tomar uma refeição mais gorda e mais bem regada. E tu sabes bem porquê! Sabes, ou não?
– No dia seguinte, com a celebração e a imposição das cinzas, damos início ao tempo da Quaresma que, antigamente, era cumprido muito mais à risca. Naqueles quarenta dias, para lembrar os quarenta dias que Jesus jejuou no deserto, onde foi tentado pelo demónio, nenhum cristão baptizado se permitia comer carne ou entrar em qualquer tipo de folia. Tudo o que fosse festa, passava para depois da Páscoa.
– Ora aí tens, Carlos! O Entrudo nunca foi um dia de folga para o povo. O domingo antes, sim, também chamado domingo gordo, precisamente porque era nesse dia que, além das carnavaladas, as famílias faziam uma refeição mais abundante, especialmente confeccionada à base de carne do suíno que se matava por altura do Natal e que, metido na salgadeira, era o governo da casa para um ano inteiro.
– Seja como for, penso que o Sanguessuga não vai deixar o seu negócio fechado num dia em que não lhe costuma faltar clientela. E a gente tem que entender. Porque, com a crise aí instalada, ninguém se pode dar ao luxo de desperdiçar um cêntimo que seja.
– Pois que seja assim, Carlos! O nosso povo costuma dizer que "por morrer uma andorinha, não acaba a Primavera". Não vai o Sanguessuga, vamos nós. E vais ver que valeu bem a pena termos tomado esta decisão. Os cristãos, por um lado, queixam-se da pouca formação que lhes é ministrada; e, por outro, quando têm estas ocasiões, não as aproveitam como deviam.
– No fundo, somos ignorantes e gostamos de continuar a sê-lo, muitas vezes por inércia, e outras vezes por preguiça que, como eu aprendi na escola, continua a ser a mãe de todos os vícios.
– E tu não duvidas, pois não, Carlos?
– Evidentemente, Tio Ambrósio! A preguiça é um dos sete pecados capitais, como antigamente se aprendia na doutrina. E também sei que a virtude capital que lhe corresponde é a diligência. O que quer dizer que um cristão, tem a obrigação de ser diligente, isto é, de procurar, por todos os meios, evoluir em
todos os aspectos da vida, quer no campo material, quer no campo espiritual.
– Estás quase um mestre, Carlos! Mas não deixes de, no próximo sábado, ir a Coimbra, de onde voltarás com mais alguns conhecimentos. E o saber não ocupa lugar!

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