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Ao calor da fogueira (29 de Janeiro de 2012)
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- Categoria de topo: O Amigo do Povo
- Categoria: Ao Calor da Fogueira
- Publicado em quinta, 26 janeiro 2012 11:59
- Escrito por Tio Ambrósio e Carlos do cabeço
– O Tio Ambrósio também não ficou muito contente com aquele desabafo de Sua Excelência o Senhor Presidente da República, Professor Doutor Aníbal Cavaco Silva…
– Não estou a ver a que desabafo te referes, Carlos!
– Toda a gente comentou o assunto, Tio Ambrósio! E vossemecê é que se está a fazer de novas, só para me ouvir barafustar mais um bocado sobre o desaforo a que se chegou no nosso país.
– Então, do que se trata, Carlos?
– Uma daquelas declarações que não ficam bem a nenhum político em Portugal, porque todos eles são mais que bem pagos e ninguém os obrigou a aceitarem os cargos em que estão investidos… e muito menos fica bem ao Senhor Presidente, que, em tudo, deve ser o primeiro a dar o bom exemplo, sobretudo nestes tempos em que são pedidos tantos sacrifícios aos portugueses.
– Mas ainda não desceste a termos concretos, Carlos! Afinal que mau exemplo vem a ser esse?
– Queixou-se sua Excelência que com a reforma ou as reformas que recebe (ou virá a receber) não consegue dar conta de todas as suas despesas. Ora, que se saiba, o Senhor Presidente tem uma reforma do Banco de Portugal, outra da Universidade, outra de ter exercido durante muitos anos o cargo de primeiro ministro.
– E também recebe o seu vencimento de Presidente, Carlos!
– Disso não tenho muita certeza, porque parece que foi aprovada uma lei que obriga os políticos a optarem ou pela pensão ou pelo vencimento do cargo que ocupam. E como eles não são burros, é claro que optam sempre pelo montante mais chorudo. Neste caso, sua Excelência está a fazer o favor a todos os portugueses de exercer o seu segundo mandato como Presidente sem tirar disso qualquer proveito, pelo menos directo. Porque aquilo dá sempre para alcavalas de representação e outras coisas que se usam em casos semelhantes.
– Mas, afinal, quanto é que vai ter, todos os meses, à conta pessoal do Senhor Presidente?
– No mínimo, uns oito mil euros. Alguns jornais atiraram mesmo para os dez mil.
– E, com isso, o Professor Aníbal António não consegue pagar todas as suas contas?
– Queixou-se, Tio Ambrósio! Mas foi um daqueles momentos infelizes que qualquer cristão pode ter. Como vossemecê já me tem repetido muitas vezes, ninguém perde nada em estar calado…
– Se calhar, eu não disse bem uma coisa dessas. Posso ter afirmado, e faço-o a pés juntos, que um homem aprende sempre mais estando calado do que abrindo a boca, sobretudo em matérias em que não esteja muito seguro.
– Não é o caso, Tio Ambrósio! O Senhor Professor é catedrático em Economia e Finanças e sabe muito bem fazer contas ao que recebe e ao que tem que pagar como cidadão deste país…
– Se é assim, eu não entendo, Carlos!
– Nem vossemecê, nem ninguém! Então, se um homem daquela categoria e com aquele vencimento se queixa que não consegue pagar todas as suas despesas com uma reformazita de oito mil euros ou mais, o que dirão os pobres dos reformados que não passam da choruda pensão de trezentos euros, e daí têm que tirar para pagar os medicamentos, a alimentação, a água e a luz e os transportes. Isto só para falar em alguns pontos que trazem angustiados os portugueses de norte a sul do país, passando, é claro, pelas ilhas, onde a vida parece que não é mais fácil.
– Provavelmente, o Senhor Professor queria dizer, que se em vez de ter optado pela política, tem optado por seguir a carreira de gestor de alguma empresa pública, semi-pública ou privada, teria um vencimento muito maior, porque há deles aí a tirarem várias dezenas de milhar por mês…
– Outra escandaleira, Tio Ambrósio! E depois vem o senhor Primeiro Ministro a querer botar um pouco de água na fervura, afirmando que os sacrifícios que estão a ser pedidos atingem de igual forma todos os cidadãos?! Uma ova, Tio Ambrósio! Desculpe eu falar assim. Mas os aumentos de transportes são apenas para os que não têm automóvel da empresa, com condutor privado, ou com cheques de combustível que dão para abastecer a viatura oficial e a privada, se é que a usam. Vossemecê já viu que até uma deputada do Bloco de Esquerda requereu uma viatura do Parlamento, com motorista às ordens, para ir visitar uma escola ou falar da Assembleia a um qualquer grupo de jovens? E depois, veio com a desculpa de que é tão pobre, tão pobre, que não tem carro próprio e que nem se deu ao trabalho de tirar a carta de condução…
– Assim, tem mesmo que usar as viaturas do serviço em que trabalha, Carlos!
– Nós temos cada representante na Assembleia, que é de um homem se benzer com a canhota! Esta da falta de carta faz-me lembrar a outra deputada que só comia cerejas quando, lá em casa, a criada lhes tirava os caroços, não fosse a menina engasgar-se ou partir algum dente. Ou ainda a outra deputada que deu, como local de residência, a cidade de Paris, para ter direito a subsídio de deslocação de não sei quantos milhares. Mas estes casos das deslocações são aos montes, Tio Ambrósio!
– Como assim?
– Os senhores deputados e outros políticos, embora vivendo em Lisboa, se são de Braga, dão a residência desta última cidade para usufruírem de um subsídio de deslocação. Estas e outras, que o povo sabe, e que revoltam qualquer um...
– Se é assim, e eles são mesmo da capital do Minho, eu diria que o melhor é mesmo mandá-los abaixo de Braga. Desculpa, Carlos! Esta é forte demais. Mas disse, está dito!











