Aviso

Ao calor da fogueira (18 de Dezembro de 2011)

– Ainda mal tinha caído na cama, já o sonho me transportava de novo ao estábulo de Belém, onde o Menino dormia tranquilo sob o olhar contemplativo de sua Mãe e sob a vigilância sempre atenta do Patriarca José. Era um quadro lindo de se ver, Tio Ambrósio! Eu nem sei mesmo se alguma vez na vida terei oportunidade para desfrutar de tão maravilhoso encanto. Embora haja um sonho que eu tenho na vida, e que aqui lhe vou confessar.
– Afinal estavas a sonhar e dizes-me agora que tens outro sonho diferente daquele. Quem te pode entender?
– Eu peço que me desculpe, Tio Ambrósio! Mas os meus sonhos sobre o Presépio e o que ali acontece, são mesmo fruto da minha imaginação que, quando lhe dá na real gana, voa por aí fora, transformando paisagens e trazendo à memória pessoas e situações que podem ter alguma vez sido reais, mas sobre as quais eu não posso pronunciar-me fixando os dois pés na terra. O outro sonho, porém é um desejo que eu acalento há muitos anos, e que seria para mim a coisa mais encantadora que me poderia acontecer.
– Vejamos do que se trata, rapaz! Com tantos rodeios, já estás a deixar-me um tanto baralhado…
– Eu digo já, Tio Ambrósio! O grande sonho da minha vida não se pode, quase com toda a certeza, realizar na vida presente. Está reservado para depois da passagem deste vale de lágrimas para o encantador cenário dos novos céus e da nova terra…
– Agora é que eu estou a ficar mesmo pendurado, Carlos! Não me deixes na dúvida.
– O Tio Ambrósio, por vezes, é um bocado apressado, parecendo que não tem tempo para me aturar…
– Não digas uma coisa dessas, Carlos! Se for preciso estamos aqui uma tarde inteira, uma noite toda e o dia seguinte se tiveres coragem para isso. Eu sou como o meu grande amigo doutor Secundino, que me vai vigiando as pulsações e a tensão arterial, e que me assegura que não contabiliza o tempo. E tem toda a razão, porque o tempo de que nós dispomos não é nosso. É uma das grandes ofertas que Deus nos deu. Entendes?
– Entendo, Tio Ambrósio! E desculpe se eu fui um bocado áspero para com a sua veneranda pessoa…
– Já estás a engraxar…
– Decididamente não estou, Tio Ambrósio! E, nesse caso, vamos directos
ao assunto. O meu grande sonho, que corresponde ao meu grande desejo, e que só se pode realizar na vida futura, é o de poder, com o joelho direito por terra, dar um beijo reverente e filial na mão de Nossa Senhora. Tão simples como isto!
– Simples e legítimo, Carlos! E, se queres que te diga, também eu vou passar a alimentar esse desejo, e tenho a certeza de que, se ele se realizar, eu o concretizarei muito mais depressa do que tu. De facto, eu estou como S. Paulo, quando escreve: "O momento da minha partida aproxima-se. Combati o bom combate, guardei a fé !".
– Isso é que ninguém pode dizer com segurança, Tio Ambrósio! De resto, estamos a desviar-nos do verdadeiro motivo que deu início a esta nossa conversa, ou seja mais um dos meus sonhos de presença junto ao Presépio de Belém. Desta feita, lá estava eu meio alapado junto ao burro, para poder ver o mais possível sem ser visto fosse por quem fosse. Até que, passando a mão pela testa do animal, ele reagiu pela traseira. Foram três sonoras colcheias, fruto, por certo, do painço que continuava a resmoer, e que o Patriarca José lhe tinha trazido de uma das suas incursões pela noite fria da Judeia.
– Disseste: três sonoras colcheias …
– Descargas da natureza, Tio Ambrósio! Daquelas coisas tão naturais que, naquele momento, vestindo a pele de
S. Francisco, me apeteceu chamar ao animal de meu irmão burro. Pois não é que a natureza, também nestes pormenores, nos aproxima?
– Chega de coisas mal cheirosas, Carlos!
– Nada disso, Tio Ambrósio! Era o puro odor a feno ressequido, mesmo com um pequeno travo de alfazema.
– E a que propósito vinha essa descarga do teu irmão burro?
– Era sinal de que estava para entrar alguém com pretenções para ser recebido pelo Menino Jesus que, entretanto continuava dormindo, como se nada fosse com ele.
– E entrou?
– Um figurão, Tio Ambrósio! Por uma fresta da choupana vi que deixara lá fora uma daquelas bombas (ou seja, um daqueles veículos) que custam ao erário público aí uns duzentos ou trezentos mil euros. Portas e janelas blindadas, condutor vestido a rigor… e dois ou três guarda-costas. O certo é que o Patriarca José, com o seu bordão de marmeleiro, pôs ordem naquilo tudo, mandou ficar os capangas do lado de fora e ao sujeito obrigou-o a deixar a arma de fogo depositada num cesto que ali se encontrava. S. José lá sabia que o fulano podia trazer segundas intenções ou ser mandado por algum rei Herodes para dar cabo da vida do Menino.
– E tinha razão, Carlos! Nestas, como em outras muitas coisas, é sempre melhor prevenir que remediar. E depois?
– Depois lhe conto, Tio Ambrósio!

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