Aviso

À sombra do castanheiro (16 de Outubro de 2011)

– O Tio Ambrósio continua nas suas leituras. É raro vir encontrá-lo sem estar ocupado, ou em contacto com os livros, ou a tratar do seu quintal…
– São as duas coisas que me dão mais prazer, Carlos! As duas, entre três! Que eu também gosto de me sentar aqui, à sombra do meu castanheiro, contemplando a natureza e interiorizando o silêncio, numa atitude de oração. Mas concordo contigo: um bom livro e o sacho são os meus companheiros preferidos.
– O Liberato até diz que essa é uma das grandes normas da perfeição humana. Aqui há tempos ele até me disse uma frase em latim, que eu não decorei, até porque já me custa falar o português com
alguma desenvoltura, quanto mais agora andar a meter na cabeça a língua dos outros.
– Se calhar, o que o Liberato te disse foi uma velha frase latina, tida como norma de vida dos clássicos, que reza assim: "Si apud bibliothecam hortulum habes, nihil deerit!..."
– Olhe que se não era isso, era coisa parecida! E eu até fico de boca aberta ao ver uma sapiência tão rebuscada como a sua! De facto, eu sou mesmo um pobre ignorante!
– Todos sabemos muito pouco, Carlos! E aqueles que se arvoram em grandes mestres, por vezes (ou quase sempre) é só para botarem figura em público. Porque, depois, se a gente lhes prega uma rasteira estatelam-se no chão que é um regalo.
– Mas a verdade é que eu gostava de saber falar e escrever melhor, assim como o Tio Ambrósio ou o Liberato, que é raro darem um pontapé na gramática. Já o Sanguessuga é mais ou menos como eu. Quando passo lá pelo comércio dele, está sempre a perguntar-me se maço se escreve com dois esses ou com cê de cedilha.
– O maço dele é com cedilha. Por certo se refere a um maço de papel, isso é um volume composto por várias folhas ...
Ou coisa assim!
– É capaz de ser isso Tio Ambrósio! O certo é que, se até agora já era difícil a gente falar a nossa própria língua, agora com esse acordo orto … não sei quê…
– Ortográfico, Carlos! Quer dizer, acordo para sabermos a forma escrita das palavras. Ou seja, como devemos escrever as diversas palavras em língua portuguesa. Até aqui tu sabias distinguir, pela escrita, entre um fato de vestir e um facto ou acontecimento.
– Aí está uma, Tio Ambrósio! Então se alguém escreve o seguinte: “Na nossa Junta de Freguesia vai dar-se um fato”, em vez de escrever que se vai dar um facto, corre para lá o povo todo à espera que o Manuel Lopes distribua calças, casaco e coletes a quem o desejar.
– Os senhores professores é que sabem, Carlos! Mas eu vou continuar a escrever como até agora. Se bem que eu já sou do tempo em que farmácia se escrevia com ph (pharmácia) e paróquia com ch (paróchia). Foi aqui há uns sessenta e tal anos que se simplificaram essas coisas, depois de estudos levados a cabo por grandes especialistas, um dos quais eu conheci muito bem, e fez favor de ser meu amigo, o Professor Paiva Boléo. Mas, nessa altura, ao que esse meu saudoso amigo me contou, aqui mesmo à sombra do meu castanheiro, os mestres tentaram que a grafia das palavras correspondesse ao modo como se escrevia em latim, que é a língua de onde provém o português, o francês, o italiano, o espanhol e por aí adiante. Eu recordo-me de que, até essa altura, quando falávamos dos nossos reis, escrevíamos que suas majestades tinham, feito isto ou aquilo. E esse grande mestre disse-me que deveríamos escrever suas majestades (com um j de Janeiro) porque era essa a raiz latina da palavra …
– Mas agora não foi por esse motivo…
– Não Carlos! Agora, cá no meu entender, foi uma pessegada de todo o tamanho. Dizem eles que devemos escrever como pronunciamos, ou seja, que não devemos gastar tinta com as letras que não são vocalizadas. Por exemplo tu dizes “um avião a jato” mas, de facto (ou de fato) escrevias “um avião a jacto”, porque na raiz latina dessa palavra vem lá o cê antes do tê.
– É mesmo de quem não tem mais que fazer, Tio Ambrósio! Além do mais, eu nunca gostei das coisas que me impõem por decreto, e com as quais eu não estou de acordo. No entanto, neste caso, eu até acho que esta bagunçada toda até dá um certo jeito a uns ignorantes como eu. Escrevemos como nos parecer melhor.
Se estiver bem, óptimo!
– Sem pê, Carlos! Agora é ótimo, porque o pê não se pronuncia!
– Quero que se dane, Tio Ambrósio! Se escrever de uma forma sigo as regras novas, se escrever de outro modo, sigo as regras antigas, que foram aquelas que me ensinaram quando eu fiz a minha quarta classe, não sei já há quantos anos…
– O que importa é que nós nos entendamos, Carlos. Porque eu penso que não é com estas novas regras que se vai conseguir que os nossos jovens, nas escolas, aprendam a escrever melhor a nossa língua. Ao que me dizem, isto chegou a um tal ponto que há alunos nas universidades a apresentarem trabalhos aos professores com erros daqueles que tu, na primária, não davas, sob pena de levares pelo menos meia dúzia de reguadas…
– São as novas mentalidades Tio Ambrósio! E viva a liberdade, que já não estamos em tempos de opressão. Será que opressão se escreve com dois esses ou com cê de cedilha, tio Ambrósio?
– Não me baralhes, Carlos!

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