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À sombra do Castanheiro (9 de Outubro de 2011)
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- Categoria de topo: O Amigo do Povo
- Categoria: À Sombra do Castanheiro
- Publicado em quinta, 06 outubro 2011 09:56
- Escrito por Tio Ambrósio e Carlos do cabeço
- Que novidades me contas, Carlos?
- Isto, agora, é vira o disco e toca o mesmo, Tio Ambrósio! Em qualquer conversa, na rua ou nas salas de espera, em todos os encontros com amigos e conhecidos, o tema é recorrente.
Todos se queixam das maleitas deste tempo, quer os que têm razão quer aqueles que a não têm. Não vejo ninguém que não se lamente sobre o estado a que chegou o nosso país, com uma dívida que não vamos ser capazes de pagar nem em três ou quatro gerações, e com as perspectivas de esta, em vez de diminuir, aumentar nestes tempos mais próximos. Os que estão lá no Governo bem tentam fazer exercícios de equilibrismo, mas estatelam-se no chão que é um regalo. Segundo me diz o Liberato, que anda mais atento a essas coisas, vendo-as em pormenor, o défice das contas públicas, apesar da austeridade em que nos meteram, em vez de descer está a aumentar. Parece que se pretendia que baixasse para os cinco e tal por cento, e afinal ele galgou por aí acima, ultrapassando os oito por cento…
- Tu estás muito bem informado, Carlos!
- São as lições do Liberato, Tio Ambrósio! Ele, por vezes, conta-me cada coisa, que eu fico de olhos arregalados, duvidando que tudo o que ele me conta seja possível. Por exemplo, afirmou-me um dia destes que o desemprego em Portugal, no próximo ano, vai upa, upa, por aí a cima. Se contarmos bem é capaz de, lá para o meio do ano que vem, ultrapassar os quinze por cento.
- É muita fruta, Carlos!
- É uma verdadeira desgraça, Tio Ambrósio! Porque isto do desemprego fez, entre muitas outras coisas, aumentar a criminalidade. Vossemecê não vê a roubalheira que vai por aí? Eu já me não refiro aos maganos que se abotoaram, nos bancos e nas empresas, com o dinheiro do povo. Isso foi uma gatunagem que não há ninguém que seja capaz de repor a devida justiça. Prendem-nos a um dia, e soltam-nos no outro, porque o peixe grosso sabe bem que voltas há-de dar para não cair na rede ou, se cair, para se libertar dela, abrindo um buraco aqui ou acolá. E, uma vez em liberdade, continuam nas falcatruas, como se nada fosse com eles e como se sempre tivessem a caderneta limpa. Basta olhar para o que se passou com o sucateiro mais célebre do país que untou as mãos a políticos e funcionários para ganhar concursos. Esteve lá dentro meia dúzia de meses. E mal botou os pés cá fora, vai de concorrer a um lote de sucata e ganhar de imediato o concurso, recorrendo ao esquema que anteriormente tinha montado.
- Há gente que não tem emenda, Carlos!
- Pois não, Tio Ambrósio! Espetou-se-lhes o raio do vício no corpo que não há ninguém que os faça parar. E até me parece que o tempo que passam lá dentro, o aproveitam para engendrar esquemas ainda mais refinados, logo que os deixem em liberdade.
- São os intocáveis, Carlos!
- Mas eu já me não quero deter sobre esses, Tio Ambrósio! O desemprego, como eu lhe dizia, trouxe consigo um aumento de roubos, grandes e pequenos, que começam a assustar as pessoas. Até cá no Cabeço já há queixas bastantes. Tio Ambrósio! A Leocádia do Cambalhotas … está a ver quem é?
- Estou! Andou lá por fora, na emigração…
- E fez uma casa bonita, que habita só um mês por ano, quando vem de férias mais os filhos, que o Cambalhotas nunca mais cá voltou. Pois não é que, um dia destes, lhe entraram por uma janela das traseiras e lhe levaram tudo o que lá tinha com algum valor?
- A mim, graças a Deus, ainda me não importunaram. Também só se levarem algumas alfaias agrícolas e meia dúzia de livros…
- Eles livros não querem! Preferem libras! E eu conheço pessoas cá do Cabeço que, com medo da gatunagem, já puseram o ouro a recato. Há mesmo quem o tenha colocado em panela de ferro enterrada num certo sítio do quintal, que só o próprio pode saber. Porque, se se bate com a língua nos dentes, adeus vindima!
- A falta de trabalho pode facilitar o recurso ao roubo e outros delitos…
- O Sanguessuga já foi assaltado uma série de vezes. Agora já não deixa nada de grande valor no estabelecimento, sobretudo dinheiro e tabaco. Dorme tudo com ele, numa caixa, debaixo da cama. E, à cabeceira, tem uma de dois canos, porque, diz ele, vale mais prevenir que remediar. Mesmo assim, quase não há semana que lhe não arrombem a janela da casa de banho, para entrarem na loja. No último dia até pacotes de arroz lhe levaram. Ele não sabe quantos, mas diz que foi para cima de uma dúzia.
- É um problema, Carlos!
- Dos graúdos, Tio Ambrósio! E Tudo se vai agravar no próximo ano, com o aumento do desemprego. E depois não há quem queira pegar numa enxada. Temos por aí tantas terras em poisio, que davam batatas, couves e favas com fartura … mas não! Arreda! Que a enxada faz calos! É muito melhor passar os dias de costas direitas, pulindo as esquinas … e ir vendo onde é que se pode botar a mão ao alheio.
- Desgraças, Carlos!
- E não se vê jeito de surgir por aí alguém com autoridade para mudar o rumo aos acontecimentos…











