Aviso
À sombra do castanheiro (25 de Setembro de 2011)
- Detalhes
- Categoria de topo: O Amigo do Povo
- Categoria: À Sombra do Castanheiro
- Publicado em quinta, 22 setembro 2011 15:11
- Escrito por Tio Ambrósio e Carlos do cabeço
– Ó Tio Ambrósio! Isto não há volta a dar-lhe...
– Não costumas vir assim tão desanimado, Carlos! Indignado com a situação que vivemos, sim! Mas o desânimo não deve caber na atitude de qualquer homem que se preze, e sobretudo na vida de um cristão.
– Mas que quer vossemecê? Vira-se a gente para a direita, e o que vê? A crise! Dá um passo em frente, e em que tropeça? Na crise! Abre o televisor para ouvir o noticiário, e qual é a novidade? A crise! E então, aquela barafunda da Madeira é de um homem se benzer três vezes, com vontade de recorrer à mão esquerda. Que me diz o Tio Ambrósio daquela embrulhada?
– Se queres que te seja sincero, Carlos, aquilo para mim é só mais uma entre tantas que por aí se fizeram e continuam ainda a fazer, embora hoje os meios sejam muito mais escassos. Mas vontade não falta a muito maganão que continua a entender a política como uma oportunidade para esbanjar aquilo que todos temos para pagar. Esbanjar, ou meter ao bolso, que não é nada melhor.
– Olhe que o Sanguessuga não está em total desacordo com a política do doutor Alberto João. Pelo menos, pareceu-me isso numa troca de impressões que tive com ele, hoje mesmo à saída da missa dominical. Para o nosso comum amigo, o comportamento daquele a quem ele chama Vice-Rei do Funchal e Marquês de Porto Santo tem uma justificação que, bem vistas as coisas, até é de aplaudir. De facto, que se conste, o Barão da Calheta…
– Estás a despromover o homem, Carlos!
– Pronto, Tio Ambrósio! O Sanguessuga também lhe atribuiu o título de Visconde do Curral das Freiras, o que não deixa de ser elogioso para um cábula que, como estudante universitário foi um excelente boémio, tendo terminado o curso com a nota mínima.
– Mas sem influências e sem favores…
– E sem notas de exames lançadas nas pautas a um qualquer domingo do ano.
A verdade deve ser dita, Tio Ambrósio!
A verdade deve ser dita, Tio Ambrósio!
– E queres tu então dizer que o Sanguessuga encontra uma justificação para a forma como o…
– ... Visconde do Curral das Freiras!
– ... para a forma como esse senhor geriu, como muito bem entendeu, um orçamento que não tinha a mínima intenção de pagar.
– É isso, Tio Ambrósio! O pensamento dele assentou no princípio de fazer grandes obras, de construir vias rápidas por toda a ilha, de dotar todas as vilas e aldeias com infra-estruturas de boa qualidade, gastando nisso o que tinha e o que não tinha. E, por via de não ter, vai de pedir empréstimos, que alguém virá atrás para pagar os respectivos juros.
– Há aí uma intenção de pouca seriedade...
– Haja que não haja, Tio Ambrósio! O certo é que nestes últimos trinta anos a Madeira transformou-se, adquirindo uma nova fisionomia. E, ao que parece (pelo menos, por agora, ainda não se viu que alguém lhe atirasse pedras nesse sentido) o senhor Visconde não usou desses empréstimos em benefício próprio. Como diz o Liberato, o doutor Alberto João é como um régulo que tem a preocupação de ver toda a sua tribo bem nutrida nada lhe importando que os vizinhos reclamem ou se indignem com a forma como ele conseguiu atingir esse objectivo.
– Quer dizer que não prima pela honestidade, mas não deixa de demonstrar uma certa inteligência política. Ele fez o trabalho e atrás há-de vir quem pague as contas. É um homem esperto, Carlos!
– Um espertalhão, Tio Ambrósio! Papel como o dele não desempenharam os políticos que, nestes últimos decénios, pulularam pela Região Centro de Portugal. Para o Vale do Tejo e para as regiões do Litoral sempre houve verbas disponíveis, mesmo que fosse através de empréstimos que agora todos vamos pagar com língua de palmo. Mas para o Centro e para o Interior, nada! Se tivéssemos tido por cá um Visconde do Curral das Freiras já a auto-estrada entre Coimbra e Viseu estava feita há mais de uma década. E o metro da Lousã? Já circulava há pelo menos um lustro! Mas não! Como diz o meu cunhado Acácio, a nós saíram-nos na rifa uma série de bananas, que falam, falam, discursam e tornam a discursar, que mandam fazer projectos, que criam conselhos de administração daquilo que não existe… mas obra feita, nada!
– Olha que o nosso Presidente da Junta, o Manuel Lopes tem feito bom trabalho, Carlos!
– É verdade! O Lopes é um homem honesto e trabalhador. Uma vez por ano manda limpar as ruas e os caminhos mais transitados da freguesia; manda botar umas manilhas nos ribeiros para estes não alagaram as terras; promove um ou dois encontros anuais com os velhotes das diversas aldeias… Mas tudo isso é pouco de mais em comparação à Madeira. Como muito bem assevera a Ermelinda, que é candidata à autarquia nas próximas eleições, ao Lopes faltou-lhe um golpe de génio, daqueles que, mesmo à custa dos outros, colocassem a nossa freguesia no centro das atenções de todos. O Barão de Santo André não fez de Poiares a capital universal da chanfana? Então e nós, cá no Cabeço, não podíamos ter assegurado para o nosso lugar o título de capital inter-espacial da farinheira, que não há por aí muito quem as saiba fazer como a minha Joana ou como a Palmira do cimo do povo?
– Para isso era preciso investimento, Carlos!
– Um empréstimo, Tio Ambrósio! A Junta tinha contraído um empréstimo de uns milhões, enquanto isso se podia fazer, montava um restaurante onde, em certos dias, se fornecia a farinheira com grelos a todos quantos quisessem degustar o acepipe...
– E quem pagava os juros do empréstimo, Carlos?
– E isso que importava, Tio Ambrósio? O doutor Alberto João já não disse que esse lado dos juros é o lado para onde ele dorme melhor?
– Apesar de tudo, eu sou mais adepto da política do nosso Manuel Lopes. Pobres, mas honestos!
– Honestos e contribuintes para o pagamento das contas daqueles que o não foram.











