Aviso

À sombra do castanheiro (18 de Setembro de 2011)

– Eu não sei se tu te recordas de, aqui há uns dois ou três anos atrás, quando tu me falavas de crise para a direita e de crise para a esquerda, eu te dizer que isto ainda não tinha batido no fundo do poço.
– E parecia mesmo que tinha, Tio Ambrósio!

– Mas o poço é muito fundo, Carlos! E não te admires se eu te disser que, mesmo agora, ainda só vamos a meio da descida, que é como quem diz a meio do naufrágio. O pior está para vir e não penses que seja coisa passageira. Desta vez o rombo na embarcação foi muito grande, os piratas usaram artilharia pesada e os larápios assaltaram os porões, levaram tudo quanto quiseram para sítio seguro, aquilo a que eles agora chamam de paraísos fiscais… e o povo que, nominalmente, era o proprietário do barco, ficou apenas com o casco do navio, sem leme nem bússola, à deriva no tormentoso mar das contradições, onde ninguém consegue dar cabo da pirataria.
– O Tio Ambrósio está a assustar-me. A mim e ao povo do Cabeço. Pois vossemecê costuma dar-nos sempre umas palavras de alento e de esperança…
– E dou, Carlos! O nosso povo já passou por momentos muito difíceis na história e sempre conseguiu sobreviver. Mas, noutros tempos, a cáfila era em número reduzido. Agora não! Os predadores são aos milhares e os salteadores escondem-se em tudo quanto é sítio. Até nos locais mais respeitáveis! Basta tu veres quantos ministros entraram nos governos destas últimas dezenas de anos. Entraram sem um vintém no bolso, alguns quase com fundilhos nas calças, vindos de famílias mais que modestas… e, passada meia dúzia de anos, vêmo-los a transferir para os tais oásis fiscais, verdadeiros antros de roubalheira, aos cem, aos duzentos e até aos trezentos ou mais milhões de euros. Não me perguntes de onde vieram, que eu não sei. Mas admira-me que não haja quem lhes ponha a mão em cima.
– Mas parece que, pelo menos alguns, agora vão pagar mais impostos…
– Impostos, Carlos? Isso não passa de uma impostura! Como vão eles pagar sobre capitais que desviaram para o estrangeiro? Tu sabes que a gatunagem não deposita o produto dos seus roubos nos bancos de cá, onde estão sujeitos a impostos. Já dizia Jesus que os filhos das trevas são mais finórios que os filhos da luz. Por isso, golpe limpo é desviar a massa e colocá-la em sítio seguro, onde não possam chegar as pequenas garras de uma justiça que de justa já quase só tem o nome…
– Puxa, que vossemecê hoje está mesmo sem nenhum recato na linguagem…
– Não estou a ofender ninguém, Carlos! Nos meus tempos de menino e moço dizia-se que só enfia a carapuça a quem ela servir. Mas se eu não adianto nomes, para não melindrar ninguém, há por aí jornais que trazem notícias em primeira página, que, de duas uma: ou são verdade e os próprios preferem calar, porque sabem com que morosidade funciona a nossa justiça, e um dia destes tudo prescreve; ou são mentira, e os próprios são tão cobardolas que nem processam os ditos meios de comunicação.
– Isso a gente já sabe, Tio Ambrósio! O pior são as consequências. Quem é que vai pagar por todos estes assaltos que, na sua linguagem, fizeram ao navio do povo?
– O povo, Carlos! O pobre do Zé é que vai passar fome, é que vai ter que trabalhar a dobrar, é que vai ter que repor a embarcação a zarpar. Para onde, por enquanto não se sabe muito bem. Mas não podemos ficar para sempre encalhados nos rochedos para onde nos conduziram estes marinheiros de água doce…
– Os transportes já estão mais caros.
– Os transportes e o resto. Na farmácia, os remédios subiram de preço e uma boa parte deles deixaram de ter comparticipação. Se vais a uma urgência ao hospital, pagas uma taxa moderadora que te dá pelo menos tantas dores de cabeça como aquelas que levavas.
O imposto de valor acrescentado (penso que é este o nome daquilo a que chamamos IVA) vai deixar de ter escalões intermédios e não estás livre de tudo passar de vinte e três para vinte e cinco por cento…
– O Tio Ambrósio não lhes esteja a lembrar essas coisas, que eles são bem capazes
de aproveitar a sua crítica como se fosse uma sugestão…
– Admira-te, Carlos! E depois há que contar com o desemprego, que vai crescer, crescer não sabemos até onde. Só agora, de uma virada, trinta e cinco mil professores, alguns contratados há mais de dez anos, foram pela borda fora. Que se arranjem! Que vão pedir para a porta de alguma igreja ou então guardar ovelhas nas serras que foram sendo queimadas não sabemos por quem, nem com que finalidade. Sim! Porque tu não penses que os incêndios que têm devastado as nossas matas são coincidências inocentes da época de verão. Há muita gente interessada em que haja incêndios…
– Quem Tio Ambrósio?
– Já sabes que eu não acuso ninguém em particular. No entanto, estou como aquele nosso amigo espanhol que diz não acreditar em bruxas. Mas que as há, há de certeza!
– E a nossa agricultura?
– A pequena agricultura, como eu te disse, ainda vai ser a tábua de salvação para muita gente. Não te admires que alguns desses professores mandados embora das escolas vão ter mesmo que arranjar um quintal para plantarem umas couves, umas batatas ou umas ervilhas. E é se não querem passar fome. Porque se alguém não tem ordenado, não tem reforma, não tem fundo de desemprego… como vai ele alimentar-se?
– Cada vez me sinto mais feliz por ter nascido agricultor e por não ter receio de pegar na enxada todas as manhãs, logo ao nascer do sol…
– Pois fica sabendo que há muitos doutores no desemprego que ainda te vão pedir explicações sobre o modo de semear um rego de feijões…
– Que venham! Eu explico de borla!

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