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O tempo de se fazer ao caminho
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- Categoria de topo: Correio de Coimbra
- Categoria: Opinião
- Publicado em terça, 21 fevereiro 2012 14:33
- Escrito por Nuno Santos

. Nuno Santos
O Caminho é a possibilidade de existir e de ser eu próprio. Não dois caminhos iguais, há caminhos que se percorrem. Sempre que eu volto ao caminho ele já não é o mesmo, desde logo, porque eu próprio sou diferente.
Eu gosto muito de caminhar isso diz muito do meu eu. Gosto de acampar, não tanto pela ‘tenda’ mas pelo ‘trilho’ que me leva ao acampamento. Por isso, para mim a vida não é tanto o ‘onde estou’ mas o ‘por onde tenho andado’ e ‘por onde espero vir a acontecer’.
Recentemente, escrevi que nós «somos muito mais os locais que visitamos do que os quartos onde dormimos. Por isso, eu gosto muito de saber quem são as pessoas ‘geograficamente’ (mais do que ‘academicamente’). Onde nasceram, onde estudaram, onde vivem… que cidades é que já visitaram, que mundos conhecem, que culturas já respiraram, que línguas sabem falar… Tenho para mim que somos muito a geografia percorrida (e a que esperamos percorrer)».
A Quaresma é claramente um tempo de caminho. Se sermos ‘caminheiros’ e ‘caminhantes’ em permanente ‘páscoa’ (passagem) da tristeza à alegria, do mais fácil ao mais construtivo, da solidão ao cuidar do outro como o ‘Bom Samaritano’ (que Bento XVI nos recorda na sua Mensagem para esta Quaresma). Um cuidado que não é apenas das ‘feridas’ mas também do ‘interior’, numa permanente correção fraterna.
A Quaresma é tempo de ‘jejum’ de tanta futilidade e inutilidade. De coisas supérfluas que não nos aproximam do outro. É tempo de ‘fome’ e ‘sede’ de sentido (e até de alimentos e bebida)… se o fazemos para emagrecer (fisicamente) se calhar também o podemos fazer para emagrecer (espiritualmente)… para podemos caminhar melhor, ficarmos mais elegantes e aproximarmo-nos de tantos que têm tão pouco.
A Quaresma é oportunidade de ‘esmola’, de partilha, de acontecer com outros. Eis a grande diferença da vida – caminhar lado a lado. Não estamos sozinhos, somos únicos mas não estamos sós. Precisamos de saber pedir ajuda e precisamos de ‘adivinhar’ quando é que o outro precisa da nossa mão. Precisamos de aprender a ‘estender a mão’ (tantas vezes os milagres de Jesus começam assim). Há tanto milagre por acontecer. Tanto milagre a precisar das nossas mãos.
A Quaresma é também tempo de ‘oração’, tempo de ‘recarregar baterias’ para novas jornadas, tempo de ganhar horizonte para se fazer à estrada com criatividade e com entusiasmo. Tempo pessoal e comunitário de encontro. Tempo para nos reconciliarmos e celebrarmos a festa do perdão. É tempo de ter mais tempo para Ele (sem desculpas fáceis porque os dias passam ‘velozes’).
Por tudo isto, a Quaresma é tempo de ‘sacrifícios’, isto é, tempo de tornar sagrado o caminho, as atitudes, os gestos, as palavras e os silêncios. Tempo de nos obrigar a levantar mais cedo para rezar e a deitar mais tarde para ler um livro ou escutar um amigo. Tempo de sacrifícios num mundo que parece preferir caminhos fáceis.
Há tanto caminho que deseja ser sagrado e tanto sagrado a acontecer no caminho que não podemos desperdiçar (mais) esta oportunidade.











