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Fé e Compromisso - Respostas a perguntas não formuladas

Jose Dias 2





. José Dias da Silva*

Quem me lê sabe que, para mim, um dos graves problemas da Igreja hoje, está, na sua dificuldade em “falar” e dialogar com as culturas, quer pela linguagem pouco adaptado a estes tempos, quer pela “auto-suficiência” com que aborda muitos dos actuais desafios.
Por isso, tenho dito e escrito que a Igreja, muitas vezes, parece estar a responder a perguntas que ninguém faz. Bento XVI, na Mensagem para o Dia das Comunicações Sociais, traz uma frase semelhante: “O homem de hoje vê-se, frequentemente, bombardeado por respostas a questões que nunca se pôs e a necessidades que não sente”. Claro que o Papa não se refere à Igreja, mas acho que seria bom que, a esta luz, reflectíssemos na maneira como a Igreja hoje se posiciona. Particularmente, agora, que o Papa proclamou atempadamente o Ano da Fé e já foi publicada a “Nota”, que solicitara aos organismos da Santa Sé, na qual se fazem inúmeras sugestões para a Igreja, a todos os níveis, no sentido de aprofundar os documentos do Concílio e o Catecismo. O não ver referida a Doutrina Social da Igreja não me surpreendeu. Mas tenho de perguntar: o que pensar deste lapso num texto preparado por responsáveis máximos da Igreja?
Refiro esta “Nota” por duas razões. A primeira é para lembrar à comunidade cristã que deve começar a preparar o Ano da Fé. A segunda prende-se com a pobreza da Nota: gente tão eminente não tem mais nada para propor? Não apresenta nada de inovador nem nada que entusiasme leigos e párocos. Nada que estimule a “sair para a rua” proclamar o nosso Deus com simplicidade, humildade e credibilidade. A ir ao encontro dos que “estão fora”: não para os converter mas para os seduzir com a Boa Notícia de que todos somos amados e de que, mesmo em tempos de crise, devemos ter esperança. A viver com os necessitados os seus momentos de alegria e tristeza, em ambientes, por vezes, tão degradados. Falta-lhe a alegria evangélica, a chama profética, a primavera florida aberta pelo Concílio, de modo a, neste cinquentenário, cumprir os “quatro passos progressivos: um conhecimento mais amplo e profundo, a assimilação interior, a reafirmação amorosa e a sua actuação”pedidos pelo Sínodo de 1985. É que se não estamos convencidos como podemos convencer?
Mas basta de Nota. É evidente que me congratulo, e vivamente, com a proposta do Papa para redescobrirmos a fé, até porque há quem pareça não a ter descoberto, apesar do ritualismo que cumpre religiosamente. Efectivamente, “a fé é o princípio fundamental, o critério essencial da renovação querida pelo Concílio. Da fé deriva a norma, o estilo de vida, a orientação prática em qualquer circunstância” (J. Paulo II). Entende-se a preocupação do Papa perante esta indigência generalizada, pois, como afirma, “se a fé não adquire uma nova vitalidade, com uma convicção profunda e uma força real graças ao encontro com Jesus Cristo todas as reformas serão ineficazes”. E vem-nos logo à memória, com esta nossa fé tão débil, a pergunta exortatória de Jesus: “Será que, quando o Filho do Homem voltar, encontrará fé na terra?” (Lc 18,8). Hoje só as testemunhas convencem. Se queremos “dar razões da nossa esperança” (1Pd 3,15), então redescubramos a fé e façamos de Jesus o nosso modelo de vida, pessoal, eclesial e social.
Este é o primeiro pressuposto básico para o diálogo connosco, com o mundo e as culturas, ou, por outras palavras, para a evangelização. Só sabendo o que sou, posso testemunhá-lo.
Mas não basta saber quem sou. E aqui a Igreja tem dificuldade em resistir à tentação de ser a “dona única” da Verdade em vez de ser sua serva. Os caminhos para o Mistério Infinito que é Deus são muitos e variados. Para nós, os católicos, o único “caminho, verdade e vida” é Jesus Cristo, único Salvador, única Esperança, “ontem, hoje e sempre” (Hb 13,8). Por isso, aderimos do fundo do coração, da inteligência, da vontade, à afirmação de Bento XVI: “a questão social é uma questão antropológica” (CinV 75). Sabemos que há vários conceitos de pessoa, mas a antropologia cristã pode resumir-se em três curtas afirmações: todos criados à imagem de Deus, todos remidos por Cristo, todos chamados à felicidade eterna (cf GS 29). A nossa concepção de pessoa só tem sentido nesta relação tão íntima que faz da nossa “consciência o centro mais secreto e o santuário do homem, no qual se encontra a sós com Deus, cuja voz se faz ouvir na intimidade do seu ser” (GS 16). Só nesta referência última, podemos conhecer a verdade de nós mesmos, dos outros e de toda a realidade criada. Se não acreditamos nisto podemos ser as melhores pessoas do mundo, mas não somos católicos. E a Igreja deve proclamá-lo bem alto.
Por outro lado, não podemos, em nome desta convicção tão profunda, afirmar que os que não pensam como nós, são incapazes de alcançar a Verdade e estão condenados ao fracasso na construção de um mundo digno do ser humano. A humildade do nosso Deus convida-nos a não querer ser a única solução realmente válida, mas a aceitar e respeitar, na diversidade e pluralidade, muitas outras formas de expressão do Transcendente, sem deixar de gritar bem alto as nossas convicções. Então ninguém terá receio de se “confrontar com a fonte primeira e última da beleza, de dialogar com os crentes, com quem, como vós, se  sente peregrino no mundo e na história rumo à Beleza infinita» (Bento XVI aos Artistas).
Só com esta humildade, assente na palavra que quer actualizar-se, no gesto que é coerente e na certeza que seduz e enamora, podemos ser levados a sério e estar abertos às reais perguntas que as pessoas e as culturas colocam e para as quais buscam respostas e caminhos libertadores.
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