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In Memoriam
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- Categoria de topo: Correio de Coimbra
- Categoria: Opinião
- Publicado em quinta, 16 fevereiro 2012 10:25
- Escrito por A. Jesus Ramos
Padre Giacomo Martina (1924-2012), um mestre que deixou marcas
No dia 6 de Fevereiro faleceu, na residência S. Pedro Canísio, contígua à casa generalícia da Companhia de Jesus, o Padre Giacomo Martina, professor, durante trinta anos (1964-1994) na Universidade Gregoriana e autor “da mais ampla e credível reconstrução do Pontificado de Pio IX, publicada em três volumes, com cerca de três mil páginas (1974-1990) e de inúmeros estudos sobre a ordem fundada por Inácio de Loila”.
É assim que o jornal do Vaticano, L´Osservatore Romano, se refere ao passamento daquele que era considerado o maior historiador da Igreja da sua geração. Estudioso incansável – a sua bibliografia apresentava, já em 1998, cerca de quatrocentos títulos – e escritor de fino recorte, o Padre Martina colaborou com numerosas revistas e, durante mais de vinte anos (1966-1988) no jornal oficial da Santa Sé.
Foi, porém, como professor que se distinguiu, marcando profundamente sucessivas gerações de alunos, eclesiásticos e leigos, que dos anos sessenta aos anos noventa do século XX frequentaram quer a Faculdade de Teologia, quer a Faculdade de História da Igreja da Universidade Gregoriana. O seu ensino era atraente, pelas imagens que usava e pela forma viva e perspicaz das suas sínteses.
Fruto do seu ensino universitário são os quatro volumes da sua História da Igreja de Lutero aos nossos dias, com várias edições em italiano e noutras línguas, incluindo o português, e que continuam a servir de manual nas faculdades de teologia de muitos países no ensino da história eclesiástica nas épocas moderna e contemporânea. Tendo atingido a jubilação em 1994, dedicou-se por inteiro à investigação sobre a sua Companhia de Jesus, publicando, em 2003, um grosso volume intitulado Storia della Compagnia di Gesú in Itália, que abrange o período da restauração daquela ordem religiosa, em 1814, até à renúncia do Padre Pedro Arrupe como superior geral dos jesuítas (1983). A propósito desta obra, Giulio Andreotti, em editorial da revista “30 Giorni”, a que deu o título de “corajoso Padre Martina”, fala da “precisão e da calma deste grande historiador”.
Uma das suas alunas afirmou, a propósito da sua morte, no “L´Osservatore Romano”, que “ele tinha um modo totalmente próprio de ensinar a história da Igreja, de buscar as fontes, de escrever com lealdade”. A leitura dos seus livros e artigos, “alargava horizontes, levantava questões, dava orientações sóbrias e seguras”. Com sábias pinceladas a história era-nos transmitida (e digo era-nos, porque tive o privilégio de ser aluno deste historiador de prestígio) em sínteses inesquecíveis, vivas, nunca cansativas.
Nascido em Tripoli, em 1924, cedo foi para Roma, onde entrou na Companhia de Jesus, aos 15 anos. Formado em Letras na Universidade La Sapienza, e em Teologia, foi ordenado padre em 1953. Depois de alguns anos a ensinar no Seminário de Anagni, em 1964 ingressa como professor na Gregoriana, especializando-se sobretudo no período conturbado do século XIX, com o Risorgimento italiano a atrair todo o seu interesse, talvez porque, como nos confidenciava, o seu bisavô materno fora um garibaldino assumido, tendo participado na defesa da república romana em 1849.
Era um professor muito próximo dos seus alunos, interessando-se pelo trabalho de cada um, e recebendo-nos, pelo menos aos sacerdotes, sem qualquer distanciamento, no seu quarto-escritório da Gregoriana, onde abundavam os trabalhos estudantis a rever, porque era o docente mais solicitado como orientador de teses de licenciatura e de doutoramento. Como o gabinete era modesto e pouco espaçoso, livros só ali tinha os essenciais. Os outros ia consultá-los, diariamente, ou à biblioteca da faculdade, ou à biblioteca geral da universidade, onde era visto, praticamente todas as tardes, a tirar apontamentos, e a cotejar datas, depois de, nas manhãs livres do ensino, ter passado várias horas nos Arquivos do Vaticano (onde com ele me cruzei por várias vezes) ou da Casa Generalícia da Companhia de Jesus.
Tradutor de Roger Anbert, a quem chamava mestre, Giacomo Martina foi ele, igualmente, um mestre consumado para muitos dos que, actualmente, se dedicam a investigar e a ensinar história da Igreja um pouco por todo o mundo católico. É assim que o recordo, com muita gratidão – como um historiador corajoso, como um professor que sabia atrair a minha atenção e a dos outros estudantes, e como um grande mestre que deixou marcas profundas no meu modo de ver, de ler e de ensinar a história da Igreja. Obrigado, Padre Martina!
A. Jesus Ramos











