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As (minhas) notas da semana 02.02.12

1. Um dos temas mais badalados, nestas últimas semanas, na comunicação social, é o da ligação de uma boa parte dos homens e mulheres que exercem o poder à maçonaria.
E quando se fala de poder, fala-se de economia, fala-se de decisão política, fala-se de empresas públicas ou com capitais públicos, fala-se de acesso à cultura e às instituições que a promovem, e por aí fora. Discretamente, assim como quem não quer ser notado, o avental tem-se estendido, como um polvo, aos sectores dominantes da sociedade portuguesa. Penso que o sector pouco ou nada atingido é o da Igreja Católica, embora seja do conhecimento geral que até por essas bandas o polvo pretende estender os seus tentáculos, como já em épocas passadas conseguiu fazer. No século XIX vários eclesiásticos de renome, incluindo alguns bispos, frequentaram as lojas, por certo na recta intenção de tentarem conciliar o inconciliável. Apesar disso, não deixou a Santa Sé, como o fez com toda a veemência sobretudo o Papa Leão XIII, de condenar essas sociedades secretas, cujos membros defendem princípios humanistas, sobretudo a tolerância e a liberdade de pensamento e de expressão, sem porem de lado a liberdade religiosa, desde que esta não ultrapasse a esfera do privado. Religião, sim, mas, no máximo, apenas até à sacristia, porque no adro das igrejas a visibilidade é já demasiado perturbadora para quem tanto defende a tolerância.

2. Felizmente, também no nosso tempo, o senhor Patriarca de Lisboa, D. José Policarpo, soube colocar o assunto nos devidos termos, afirmando o que a Igreja vem repetindo desde o século XVIII – um cristão em comunhão com a Igreja não pode usar o avental, nem às claras, nem às escondidas. O princípio, aliás, vem já bem explícito no Evangelho: ninguém pode servir a dois senhores. E diz também o Evangelho que o que se diz em segredo há-de ser apregoado sobre os telhados, e nada há escondido que não venha a ser mostrado em plena luz. De facto, o que mais intriga aqueles a quem os maçons apelidam de “profanos” é o secretismo das lojas. Se os princípios que informam a sua ideologia e as suas acções são assim tão bons, tão sem mácula, por que razão os não expressam na praça pública? Porque escondem os seus membros a sua verdadeira identidade atrás de um nome fictício, habitualmente ligado a personalidades históricas que fizeram do laicismo, e muitas vezes do anticlericalismo, a sua profissão de fé? Porque não são vistas por aí, em pleno dia, as suas tão propaladas acções filantrópicas, sobretudo neste tempo de crise e de pobreza generalizada? A maçonaria já criou algum banco alimentar contra a fome? Já fundou alguma farmácia onde os doentes pobres possam abastecer-se de medicamentos a baixo custo, ou mesmo a custo zero? Já incentivou algum movimento de jovens que partam, voluntariamente, para ajudar, durante alguns anos, os pobres do chamado terceiro mundo? Já construiu algum lar para idosos, ou algum hospital para doentes terminais, que permitam que todos tenham direito não apenas a uma vida digna, mas também a uma morte digna?

3. Eu sei que a tolerância deve fazer parte do modo de estar de qualquer cidadão, e que o respeito pela opinião alheia em nenhuma circunstância deve ser posto em causa. No entanto, é preciso dizer-se, alto e bom som, que, em nome de nenhum princípio, mesmo que seja o da tolerância, se pode confundir a verdade com a mentira, a justiça com a injustiça, e muito menos colocá-las no mesmo saco, como se fosse indiferente dar meios de subsistência a um pobre ou explorá-lo, como por aí se faz, até ao tutano. É preciso dizer-se que, ao lado do humanamente tolerável, há o humanamente intolerável. E não se trata aqui apenas de uma questão de retórica, ou mesmo de filosofia. Trata-se de uma questão de prática de vida. A luz nunca se pode confundir com as trevas, muito mais para quem sabe que as trevas são apenas a causa da ausência da luz. Neste sentido, os cristãos, nomeadamente os pastores, não podem ficar calados e muito menos ficarem-se por respostas dúvidas, das que dão os que querem agradar a gregos e a troianos. A tolerância não pode ser um limite à verdade, nem pode ofuscar a verdadeira luz. Não foi, certamente, por acaso que Cristo, depois de ter dito de si mesmo “Eu sou a luz do mundo”, disse aos discípulos (e em primeiro lugar aos Apóstolos): “Vós sois a luz do mundo (…). Brilhe a vossa luz diante dos homens de modo que, vendo as vossas boas obras, glorifiquem vosso Pai, que está nos Céus” (cfr. Mt. 5, 13-16). Quem tem ouvidos para ouvir…

A. Jesus Ramos

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