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Congresso promovido pelo ISET deu a conhecer a comunidade medieval de Santa Cruz e o seu primeiro Prior, São Teotónio
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- Publicado em terça, 21 fevereiro 2012 14:00
- Escrito por Miguel Cotrim
Os sucessores de D. paterno, “provinham do grupo de clérigos francos” que, a seu tempo, foram ocupando as sés, sem excluir a cidade do Mondego. O conferencista passou, depois, um por esses prelados, a começar por D. Crescónio, já sagrado em Coimbra, por Bernardo de Toledo, “conforme o ritual romano”. Seguiu-se lhe Maurício Burdino, e à transferência deste para Braga, o bispo Gonçalo Pais (1109-1127) “que seria o responsável pela inflamada luta contra o moçarabismo, sempre resistente e que procurava ressurgir com a oposição aos cavaleiros franceses”. Depois, em 1128, foi eleita (ou impostos) o bracarense Bernardo, também ele de formação gregorianista.
Nestas circunstâncias, de uma luta latente entre moçárabes e gregorianistas, foi importante o papel do Mosteiro de Santa Cruz e do seu Prior Teotónio que souberam fazer a síntese “viável entre herdeiros do moçarabismo conimbricense” e os defensores do romanismo.
Os “fundadores” de Santa Cruz
O leigo envolvido foi “obviamente o jovem conde Afonso Henriques, que tinha em vista vários objectivos político-religiosos”. E os eclesiásticos “foram o cónego D. Telo, membro do cabido, arcediago da Sé e colaborador de vários bispos”, que pretendia, com a fundação, além de “reagir à forma como fora reorganizado o capítulo da catedral”, mostrar a sua estranheza pelo facto de, em 1128, ter sido preterido em favor de um cónego bracarense na eleição para bispo de Coimbra”; o cónego João Peculiar, jovem mestre-escola da Sé, que comunga dos mesmos ideais de D. Telo e não escondia “alguma justa ambição a fazer carreira eclesiástica”; e, finalmente, D. Teotónio, sobrinho do Bispo moçarabizado Crescónio, que o trouxera jovem para Coimbra, de onde se deslocou para Viseu, já sacerdote como Prior da Sé daquela cidade (então sob a jurisdição do Bispo de Coimbra), e que “acabava de chegar de uma peregrinação à Terra Santa, para onde pretendia voltar para tomar o hábito dos cónegos do Santo Sepulcro”.
Segundo Jesus Ramos, “todos estes homens merecem o título de fundadores de Santa Cruz, um porque foi o mecenas necessário ao empreendimento; outro porque, no momento próprio, lançou a ideia que, há muito, vinha amadurecendo dentro de si”; outro porque, tendo estudado teologia em Paris, e com grandes dotes diplomáticos, pôs ciência e diplomacia ao serviço do projecto”. E logo acrescentou o orador: “Pode afirmar-se, porém, que o verdadeiro fundador de Santa Cruz dói D. Teotónio”, pois foi ele quem “fez crescer a comunidade monástica, imprimindo-lhe uma espiritualidade própria, fundada em dois pontos principais: a imitação de Cristo Crucificado, que ele assimilava sobretudo na sua segunda peregrinação a Jerusalém, e a imitação da Santíssima Virgem – pobre, humilde e ilimitadamente confiante na vontade divina”.
Para o Padre Jesus Ramos, “não podia ser de outro modo”. Pois os três primeiros varões apontados, embora “dotados de virtudes apreciáveis e preclaras, não estavam à altura de uma obra que tinha como primeiro intuito o serviço de Deus, o aperfeiçoamento espiritual dos seus membros e a irradiação evangelizadora em terras até aí ocupadas pelo poder muçulmano”. Para levar a cabo tais desígnios “precisava-se de um santo”. E esse era D. Teotónio, sobre cuja vida o orador, depois, se debruçou demoradamente, desde o seu nascimento em Ganfei (Valença) até à sua morte, no mosteiro conimbricense, a 18 de Fevereiro de 1162, recordando ainda a sua canonização, um ano depois, a 18 de Fevereiro de 1163, o que se fazia dele, “indubitavelmente, o primeiro santo português”.
A vida litúrgica em Santa Cruz
A liturgia própria das tradições canonicais parece ter-se caracterizado, largamente, pela sua capacidade de projecção de encanto e de aparato, de rituais de vitalidade pastoral e eclesial. A força dessa rica herança eclesiástica explica, em parte, o sucesso dessa herança entre os especialistas que de dedicam a esta área de estudos.
Santa Cruz, segundo este docente da Universidade de Coimbra, caracteriza-se desde a primeira hora por ser um espaço onde se celebrava uma liturgia exigente, cuidada, atraindo as atenções dos fiéis, especialmente entre as aristocracias coimbrões, com a família real à cabeça. Os sacerdotes eram cultos, os adereços, como os cálices ou os paramentos eram bastante trabalhados.
Celebravam-se missas muito solenes e muito demoradas porque o primeiro prior do Mosteiro de Santa Cruz valorizava muito a oração, passando quase 24 horas a rezar. Os cónegos regrante entregavam-se, também eles, muito à oração e à meditação. Gostavam muito de uma liturgia prolongada, contemplativa e celebrativa.
Em Santa Cruz celebravam-se inúmeras vigílias, principalmente, antes de qualquer combate de D. Afonso Henriques. Santa Cruz adquire também uma grande importância significativa devido ao sucesso do Rei de Portugal.
O Mosteiro de Santa Cruz é considerado uma escola de intelectuais, centro de espiritualidade e de formação clerical e de 1150 a 1250 tem uma forte tradição copista (produção de livros), podendo ser considerado como das primeiras grandes tipografias da Europa. Santa Cruz deixou-nos hoje uma grande biblioteca que hoje se encontra no Porto.
O culto das relíquias adquire também uma importância fenomenal na época. Saulo Gomes reconhece que Santa Cruz é autêntico santuário nesta matéria, considerando o maior a nível nacional. Ganhou importância na liturgia, na sua exposição, como ainda hoje é muito praticado porque a história do cristianismo também se faz muito através dos mártires.
A Teologia em Santa Cruz.
A influência agostiniana
Para Manuel Augusto Rodrigues, os frades de Santa Cruz aparecem numa altura em que a teologia monástica tinha atingido o seu cume. Havia uma preocupação muito grande de ir às raízes. Para este último conferencista o objecto da teologia centrava-se na Palavra de Deus, na tradição viva. Para Manuel Augusto Rodrigues a “história da teologia não é uma ideologia, mas sim uma inteligência”. Daí que na teologia monástica, onde se incluíam os crúzios de Santa Cruz, havia a necessidade de saber a Bíblia ou os salmos de cor de forma a saboreá-la.
S. Agostinho marcou bastante a história do ocidente porque foi um apaixonado pelas Sagradas Escrituras. Referências a Santo Agostinho continuam ainda hoje a movimentar muitos intelectuais. Os crúzios precisavam de ter um modelo, uma referência e escolheram Santo Agostinho como seu “mestre”. A teologia ensinada em Santa Cruz, tinha toda ela influência agostiniana.
A biblioteca de Santa Cruz também mereceu referência do orador que, apesar não dizer tudo, sobretudo como era o ensino da teologia, mas diz-nos os livros que tinham como os vários autores que possuíam como S. Jerónimo, S. Isidoro de Sevilha, Hugo S. Vítor, etc. Muitos eram lidos, comentados e serviam de alimento espiritual aos crúzios.
Tanto moçárabes como judeus tiveram grandes pensadores. Aparecem livros contra os judeus, de polémica anti-judaica. Também esperávamos encontrar outros autores, outros livros, mas os tempos eram difíceis, refere o professor da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra que regozija-se pelo facto da biblioteca de Santa Cruz ter sido levado por Alexandre Herculano, para o Porto, se não teríamos, talvez, perdido uma boa parte da história do Mosteiro.
Apesar de faltarem muitos livros, a parte teológica e bíblica está muito bem representada.
é ter “capacidade de unir fé e cultura”
No encerramento do congresso, D. Virgílio Antunes afirmou que “regressar à história e às raízes culturais e cristãs é muito importante para a construção de realidades que hoje nós somos”.
“Temos todos a impressão de vivermos hoje determinados complexos no que consiste à dimensão cristã”, referiu o prelado perante os congressistas presentes. “Voltarmos à Santa Cruz, marcas do passado da história da cidade e da diocese é termos conhecimento de uma realidade que nos precedeu e serve para percebermos quais as intuições que nos pode trazer para os dias de hoje”, referiu o prelado ladeado do Bispo Emérito de Coimbra, D. Albino Cleto e do Padre Jesus Ramos, director do ISET.
Fazer memória de Santa Cruz e de S. Teotónio é ter “capacidade de unir fé e cultura”, não são duas realidades distintas, são confluentes, podem coexistir, referiu o Bispo de Coimbra ao congratular-se por esta iniciativa que juntou três instituições: ISET, Colégio de S. Teotónio e a paróquia de Santa Cruz.
“Nós, hoje estamos quase todos obcecados pelas condições económicas. É necessário encontramos outras formas de fazer caminho”, referiu o prelado ao apontar para o exemplo dos monges de Santa Cruz que praticavam a contemplação. “Há necessidade de ir com mais aprofundamento ao encontro de Deus, de nós mesmos e dos outros”, explicou D. Virgílio ao concluir que Coimbra ainda tem um longo caminho a percorrer nesta matéria.











